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Category Archives: Raça e Gênero

Débora Giordano

Não é uma ironia que o Programa Delegacia Legal incentive seus policiais civis a usarem de atos ilegais e discriminatórios com os suspeitos? Pois é a realidade: os policiais civis que se inscrevem no curso de atualização do Programa Delegacia Legal aprendem (lê-se, num curso obrigatório para a atuação nesse tipo de delegacia e em cartilha oficial) que num caso de tráfico de drogas, o suspeito branco é usuário e o suspeito negro é traficante.

E isso é ensinado com gráfico ilustrativo e com a sentença “Tráfico de entorpecentes – a inter-relação entre as três personagens principais do tráfico de entorpecentes pode ser ilustrada pelo gráfico abaixo. Qualquer ação realizada em um dos vértices do triângulo imediatamente se reflete nos demais, caracterizando várias reações previsíveis que podem explicar crimes realizados pelos traficantes, se analisados criteriosamente”.

E, pasmem, o dito triângulo se constitui da seguinte forma: base 1 – repressor ou polícia; base 2 – usuário (branco com feições inocentes); meio do triângulo – drogas e cume do triângulo – traficante (negro com feições suspeitas).

Ora, aqui cabe o questionamento – Já não basta todo o preconceito embutido na sociedade que se reflete nas ações de policiais? Esses mesmos policiais têm que ser ensinados a lidar de forma desigual com seres humanos, partindo do princípio da cor de pele do suspeito e apoiado pela própria corporação?

Sendo assim, aqui vai um alerta aos que tentam amenizar o fato – esse tipo de atitude não deve ser visto como mero preconceito, mas sim como racismo. O que significa que, agindo dessa forma, os organizadores de tal curso são tão criminosos quanto aqueles que eles apontam em ilustrações, visto que racismo é crime inafiançável passível a até 2 anos de prisão.

E depois do fato “vazar” para a imprensa, o subchefe de Polícia Civil, delegado Ricardo Martins afirma “O curso precisa de atualização”. Ok, que precisa é visível, mas o que será que a corporação teria a dizer se perguntada pela responsabilidade das ações em campo de todos os policiais que já passaram pelo curso?

A reformulação não deve ser somente nos cursos, mas sim na mentalidade dos policiais que atuam na nossa cidade. Vou mais longe ainda: embora os policiais precisem ter sua formação revista, eles refletem a sociedade de um modo geral, uma vez que são atores que participam diretamente (e muitas vezes erroneamente) com a parcela para a qual todos tendem a torcer a cara.

Então creio que, ao invés de centralizar todas as mazelas da Polícia numa simples imagem, devemos defender maior rigor desde o princípio: maior grau de dificuldade nas provas de ingresso à corporação, melhores condições de trabalho e salário para a classe, maior rigor em questões psicossociais que envolvam os policiais e também maior fiscalização sobre a cultura da propina e da crueldade que pairam sobre esses profissionais.

Num momento em que o mundo discute Direitos Humanos e de igualdade entre os seres, cabe aos porta-vozes do Governo (os responsáveis pelo setor Segurança) a respeitabilidade entre os seres e, sobretudo, a busca incessante pela consciência e honra que tamanha responsabilidade agrega: ser policial não deve representar ser portador do medo em potencial, mas sim ser o representante da Segurança dos cidadãos.