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Category Archives: Infância e Adolescência

Carlos Carvalho

Na primeira crítica para este site, cheguei a elogiar o trabalho dos meus colegas jornalistas quando o assunto é a exposição de crianças e adolescentes na mídia. Em nenhuma das matérias que pesquisei os nomes ou imagens de crianças envolvidas eram divulgados, ao contrário, em todas as matérias seus direitos estavam resguardados.

Logo após a publicação do texto, a menina Isabella Nardoni foi atirada da janela do apartamento de seu pai em São Paulo e a partir deste momento o que vi foi a super-exposição das imagens e do nome da criança.

Por dias a fio, imagens eram divulgadas sobre o assassinato. Em algumas matérias encontrávamos novidades. Mas em quase todas só víamos repetições de informações numa tentativa infeliz de ter a matéria mais completa e mais atrativa ao leitor/espectador.

Numa reflexão sobre a cobertura jornalística do caso Isabella é preciso que façamos as seguintes perguntas: os direitos da criança e do adolescente são perdidos quando o menor é a vitima? Super-exposição e invasão de privacidade da criança pode acontecer quando ela está morta? Não seria um desrespeito a sua memória?

É preciso lembrar do caso de outra menina – aquela de Planaltina, Goiás. Após roubar uma farmácia foi levada para um presídio masculino e colocada numa cela com 20 homens. Ela passou de ladra a vítima, mas teve sua imagem preservada.

Por fim, lembrei-me do caso João Helio. João Helio ficou atado ao cinto de segurança do carro de sua mãe que foi roubado. Os assaltantes não o retiraram e o arrastaram por ruas do subúrbio do Rio de Janeiro ao longo de mais de seis quilômetros, até a sua morte.

Um dos assassinos era menor de idade. E seu nome e imagem não foram divulgados em nenhuma matéria de TV ou jornal, mas do menino João Helio sim. Não deveria ter sido ao contrário?

Vejamos o que diz o Estatuto da criança e do Adolescente, em seu capítulo II, artigo 17, sobre o direito à liberdade, ao respeito e a dignidade. “O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais”.

A partir daí, não seria necessário refletir sobre a memória da criança vítima?

Sem dúvida, a quebra destes direitos resguardados em lei promove uma melhor repercussão dos casos onde eles são vítimas. E é inegável que colabora para uma apuração mais rápida dos crimes, graças a comoção pública.

Talvez não. O assassino de João Helio deveria ter perdido seus direitos quando matou o menino (releia o trecho do Estatuto acima). Este mesmo texto não poderia determinar a perda de direitos de um jovem infrator?

Concordamos que a exposição do caso Isabella promoveu a resolução mais rápida do inquérito policial – o que não deixa de ser um risco. Porém, quando a imprensa noticiou a prisão dos supostos assassinos, as imagens estavam sempre recheadas por fotos da menina.

Uma coisa é certa: todas as vezes que vi a foto da Isabella e aquele boneco forense sendo atirado da janela, não me farão esquecer o rosto da menina.

Mas este rosto necessariamente estará atrelado a uma tragédia.